Share, , Google Plus, Pinterest,

Postado em

Memórias na nuvem

James Scavone busca respostas sobre os rumos das lembranças na era pós-Google

Hammershøi. Passei as últimas férias por Estocolmo e no app de anotações do meu celular estava esta palavra escandinava com a letra Ø cruzada na diagonal. Sempre carreguei um pequeno livro de anotações para apoiar a minha memória nas viagens, mas  ultimamente, tenho apenas teclado algumas palavras avulsas como:  Hammershøi, gatan, Oaxen Slip, fika, Nytorgiet, coffice. Algumas são expressões e outras são termos que fazem todo o sentido quando anotados e quase nenhum quando resolvo rever o que escrevi. 

É claro que nada está perdido em tempos de Google. Vilhelm Hammershøi, pintor dinamarquês, nascido em 15 de maio de 1864 (Wikipédia), ficou conhecido como poeta do silêncio (The Guardian) por pintar quartos e personagens solitários. O artigo sobre o pintor no Wikipédia e o ensaio do The Guardian são a faísca que meu cérebro precisa. São, na verdade,  memórias emprestadas que acabam girando a manivela das conexões que eu mesmo fiz quando descobri Hammershøi no Vasamuseet, muChange to the Page Builderseu sueco localizado na  capital.

Lembro-me, agora, de pensar em Edward Hopper ao olhar Hammershøi e de chamá-lo de Hopper europeu para a minha mulher ou, ainda,  de uma espécie de Vermeer contemporâneo. Os três realistas e mestres com uma luz que me deixa em paz, que me acalma. Eu conheci Vermeer e Hopper nos anos pré-Google, são memórias de quando estudei história da arte, fucei em enciclopédias e caminhei por museus europeus em minha adolescência, carregando um caderninho preto e um lápis. Já o terceiro, Hammershøi é uma descoberta pós-search engines. É como visitar um amigo em endereço desconhecido sem se estar ao volante, já que parece não aprendemos como  chegar lá.

image

Esta síndrome (que não é a de Estocolmo) tem até nome. Um estudo da Columbia University chamou-a de Google Effect – tendência de esquecer informações que podem ser encontradas com facilidade na internet. Quando foi a última vez que você decorou um número de telefone? Ou, quantas vezes você recorreu ao IMDB (Internet Movie Database) para lembrar o nome de um ator ou de um filme vencedor de Oscar em 2005? A tecnologia vem se tornando a muleta da nossa memória, mas não quer dizer que estamos ficando mais burros. Transferimos pedaços de nossa memória para a nuvem de armazenamento assim como fazemos com as fotos da família e, simplesmente, guardamos o caminho para acessar esta informação. A palavra Hammershøi é a chave, o buscador vira o encaixe na fechadura e abre a caixa, revelando tudo que estava guardado (e terabytes a mais). 

Outro passo firme que damos em direção aos ciborgues com braços e pernas produzidos em impressoras 3D, corações de plástico e memórias instaladas em uma database em algum subterrâneo da Finlândia.

217314_2002577667802_7687602_nJames Scavone é Chief Creative Officer da agência Salve_ e acumula prêmios em direct, promo e digital. É também colunista e blogueiro frequente com textos em diversas revistas, jornais e sites de propaganda e literatura.

Comments

comments

Share, , Google Plus, Pinterest,

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *