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O conteúdo migrou do calendário para o mapa

Leandro analisa o papel do conteudista na era digital, segundo ele, um criador de conversas e catalisador de relações

Houve uma época em que o conteúdo era escasso. Quando eu era adolescente, esperava o jornal chegar, de manhã, na casa dos meus pais. Se não chegasse, eu não teria o que ler e se isso acontecesse no final de semana, eu teria de pegar uma bicicleta e pedalar meia hora até a banca mais próxima.

A televisão não era muito melhor. Os gols do meu time só eram transmitidos à noite ou no meio do dia. Se eu não estivesse em casa, não veria os lances. Há gols que eu nunca vi e há gols que eu só revi muitos anos mais tarde, no YouTube. A era da escassez acabou em algum momento na metade dos anos 2000, talvez tenha sido com os smartphones, com a expansão da banda larga, com as redes sociais ou com o HuffPost. Não sei muito bem. O fato é que, hoje, pode-se receber o que se faz no jeito e na hora que se quer.

Na verdade, perdemos o controle do conteúdo, da sua distribuição, da hora em que ele será exibido assim como, perdemos o poder de organização do tempo das pessoas. Entretanto, é claro que ainda há conteúdos como jogos de futebol e finais do MasterChef, por exemplo, que concentram a atenção das pessoas que organizam seus calendários em função destas programações.. Mas, até isso, está ficando cada vez mais raro. O problema é que continuamos agindo como se isso fosse regra e, não mais, exceção. É realmente complicado .
Desta forma, controlar o tempo de alguém é ter um poder muito grande nas mãos o que não é nada fácil desistir dele ou deixá-lo de lado. Portanto, pergunta-se: o que resta ao conteúdo nesse cenário?

Nós, produtores de conteúdo, não somos escassos a ponto de provocar desejo incontroláveis. Nós também não somos mais uma referência temporal capaz de organizar a agenda das pessoas. Porém, neste contexto, ficou claro que o nosso papel migrou para outros territórios. Agora, nós alimentamos conversas e criamos relações. Conteúdo tem muitas funções, mas talvez uma das mais claras seja a de oferecer material para conversas além do nosso cotidiano concreto.

Consequentemente, o bom conteúdo ou a boa estrutura de conteúdo economiza nosso tempo, porque oferece-nos uma quantidade concentrada de experiências que, sem dúvida, não seríamos hábeis para recebê-las de forma diferente. E a partir deste raciocínio, entende-se que uma conversa pode se tornar um papo e que, por sua vez, pode virar ideia, relacionamento ou um negócio.

Por isso, a comunicação ou o diálogo criará sempre relações entre indivíduos que tendem a se interessar uns pelos outros, mesmo sendo desconhecidos entre si a buscar novas amizades, novos relacionamentos, novos lugares e novas atividades que jamais vislumbraram um dia realizá-las.

Portanto, o conteúdo bem feito e bem produzido amplia nosso repertório de conversa, de relações e, mais ainda, o nosso horizonte. Então, o bom argumento, hoje, pode não mais controlar o tempo, mas está a um passo de fletar com a geografia, já que o discurso comunicativo é um território novo e, infinitamente, mais interessante que a convenção atual. Assim, está na hora de trocarmos os velhos calendários por novos mapas, sem medo.

Leandro Beguoci é editor-in-chief do F451 e professor no IED/Escola SP e foi o convidado especial do mês para falar sobre os rumos dos conteudistas.

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